A 3 de novembro de 2026, a Barn2 publicou uma análise da quota do WooCommerce e do Shopify por país, feita sobre os dados do HTTP Archive. Portugal não aparece nela: o estudo cobre os 25 países com maior base de rastreio, e o nosso não é um deles. Ainda assim, o padrão que o estudo encontra diz alguma coisa a quem vai abrir uma loja em Portugal, e os dados de Espanha são os mais próximos que existem. Neste artigo explico o que a Barn2 mediu e como, o que se pode e não se pode concluir para o mercado português, e o que decide a escolha numa loja portuguesa: MB WAY e Multibanco, faturação certificada pela AT com ATCUD, propriedade da loja e custos fixos.
O artigo descreve os dados e as regras à data de publicação. Não substitui o conselho do seu contabilista certificado sobre faturação.
O que mediu a Barn2 sobre o WooCommerce e o Shopify por país?
O artigo é de Katie Keith, fundadora da Barn2 (Barn2, “WooCommerce market share by country”). O título da página resume a tese: “O WooCommerce está a crescer. Só que não em inglês” (tradução própria).
O método, como o artigo o descreve:
- A fonte é a dimensão geográfica do HTTP Archive, nos rastreios de agosto de 2023, agosto de 2025 e agosto de 2026. O HTTP Archive rastreia as origens que constam do Chrome UX Report (CrUX).
- Entram os 25 países com maior base de rastreio em agosto de 2026. A China ficou de fora porque o rastreio quase não lá chega.
- A métrica é a quota da plataforma nos sites rastreados em cada país, não o número absoluto de lojas. A base de rastreio encolheu cerca de 10% no período, e números absolutos dariam uma falsa ideia de queda.
- Compara sempre agosto com agosto, porque o rastreio de dezembro é mais pequeno e inflaciona as quotas.
- A deteção olha para a página inicial e para uma página interior. Lojas privadas ou atrás de palavra-passe podem escapar.
Os números de agosto de 2026 para os países europeus do estudo e para o Brasil:
| País | WooCommerce | Shopify | Quem lidera |
|---|---|---|---|
| Espanha | 9,1% | 5,0% | WooCommerce |
| Itália | 7,6% | 5,1% | WooCommerce |
| Polónia | 7,0% | 2,4% | WooCommerce |
| Países Baixos | 6,2% | 5,2% | WooCommerce |
| França | 5,6% | 5,5% | WooCommerce |
| Bélgica | 4,9% | 6,3% | Shopify |
| Alemanha | 3,8% | 5,1% | Shopify |
| Reino Unido | 5,8% | 9,2% | Shopify |
| Brasil | 2,8% | 1,5% | WooCommerce |
As conclusões principais do artigo: o WooCommerce lidera em 14 dos 25 países, e em nenhum desses 14 o inglês é língua oficial. O Shopify lidera nos 7 países onde o inglês é língua oficial. Entre agosto de 2023 e agosto de 2026, o Shopify subiu a sua quota em 24 dos 25 países, e a vantagem do WooCommerce estreitou-se em 12 dos 14 países onde lidera. O artigo não diz qual é o país onde o Shopify não cresceu nem quais são os dois onde a vantagem do WooCommerce não diminuiu.
Portugal está nos dados da Barn2?
Não. Portugal não está entre os 25 países com maior base de rastreio no HTTP Archive, e o artigo não dá nenhum valor para o mercado português. Qualquer percentagem “do WooCommerce em Portugal” atribuída a este estudo é inventada.
O que os dados permitem dizer é mais modesto:
- O país vizinho com números é Espanha, onde o WooCommerce tem quase o dobro da quota do Shopify (9,1% contra 5,0%). É um mercado com hábitos de compra e meios de pagamento diferentes dos nossos, por isso serve como referência e não como substituto.
- O padrão linguístico da Barn2 é claro: o Shopify lidera onde se fala inglês, o WooCommerce lidera na maior parte dos países onde não se fala. O Brasil, o único país de língua portuguesa no estudo, segue esse padrão (2,8% contra 1,5%), mas é um mercado de outra dimensão e com outro sistema de pagamentos, e não o uso como aproximação a Portugal.
- O Shopify cresceu em quase todos os países do estudo. Mesmo onde o WooCommerce lidera, a distância está a diminuir.
A Barn2 também testa uma explicação comum e rejeita-a: a disponibilidade do Shopify Payments. O Shopify Payments funciona em Espanha, Itália, França, Países Baixos e Polónia, e o WooCommerce continua a liderar nesses países. A riqueza do país também explica pouco, com uma correlação de ordens de +0,35 com o PIB per capita.
Que limites tem este método?
Os números da Barn2 mostram tendências e têm limites que convém conhecer.
O país não é onde a loja está alojada nem o domínio que usa. O artigo diz que cada site é marcado com o país “de onde é servido”, mas a documentação do CrUX diz que o país é deduzido a partir do endereço IP de quem visita (Chrome UX Report, dimensões). Um site entra num país quando recebe visitas suficientes de utilizadores do Chrome desse país. Uma loja portuguesa com muitos clientes em Espanha pode, por isso, contar para Espanha.
A deteção vê apenas a página inicial e uma página interior. Uma loja WooCommerce instalada numa subpasta, ou uma loja Shopify headless com outra camada à frente, pode não ser detetada.
O artigo não publica a consulta nem o conjunto de dados, apenas uma ligação ao httparchive.org. Os números não são reproduzíveis só a partir do texto. Os valores de 2023 e 2025 por país (exceto França e Países Baixos) estão apenas num gráfico, e não os consegui ler, por isso não os cito.
Que meios de pagamento portugueses funcionam no Shopify e no WooCommerce?
Numa loja portuguesa, o checkout tem de oferecer MB WAY e referência Multibanco, e as duas plataformas resolvem isto de maneira diferente.
No Shopify, o Shopify Payments está disponível em Portugal (países suportados). Entre os meios locais estão o MB WAY e o Multibanco, ambos para clientes em Portugal. A vantagem é que vêm dentro do mesmo contrato e do mesmo painel, sem um prestador adicional.
No WooCommerce, os meios portugueses entram por plugins de prestadores locais. Os dois que encontro no diretório do WordPress.org:
| Plugin | Meios | Instalações ativas | Última atualização |
|---|---|---|---|
| Multibanco, MB WAY, Credit card, Apple Pay, Google Pay, Payshop, and PIX (ifthenpay) | Multibanco, MB WAY, cartão, Apple Pay, Google Pay, Payshop | 8000+ | 22 de outubro de 2026 |
| Multibanco / MB Way / Payshop (by LUSOPAY) | Multibanco, MB WAY, Payshop | 300+ | 8 de setembro de 2026 |
No WooCommerce escolhe o prestador, negoceia as condições com ele e pode trocar de prestador sem mudar de plataforma. No Shopify, os meios locais vêm de série com o Shopify Payments, e a escolha de outro prestador depende do que existe na loja de aplicações.
Como fica a faturação certificada pela AT em cada plataforma?
Em Portugal, as faturas têm de ser emitidas por programas de faturação certificados pela Autoridade Tributária. O Decreto-Lei n.º 28/2019 e a Portaria n.º 195/2020 trouxeram o código QR e o ATCUD (Portaria n.º 195/2020, Portal das Finanças). Segundo a Ordem dos Contabilistas Certificados, o código QR é obrigatório desde 1 de janeiro de 2022, e o ATCUD com a comunicação das séries desde 1 de janeiro de 2023 (OCC sobre o código QR).
A minha leitura, que não é uma afirmação da AT nem dos fabricantes: nem o WooCommerce nem o Shopify emitem, por si só, faturas de um programa certificado pela AT com ATCUD e código QR. O documento de encomenda que a loja gera não é a fatura legal. Nas duas plataformas, a fatura sai de um programa de faturação certificado, ligado à loja por plugin ou aplicação, que recebe a encomenda e devolve a fatura.
No WooCommerce, as ligações a programas de faturação portugueses aparecem no diretório do WordPress.org:
| Plugin | Função | Instalações ativas |
|---|---|---|
| Moloni | Ligação ao programa de faturação Moloni | 2000+ |
| Invoicing with InvoiceXpress for WooCommerce | Ligação ao InvoiceXpress | 100+ |
| NIF (Num. de Contribuinte Português) for WooCommerce | Campo NIF/NIPC no checkout e na encomenda | 5000+ |
Não verifiquei o estado de certificação de cada programa. Antes de escolher, peça ao fornecedor o número do certificado emitido pela AT e confirme-o. No Shopify, a lógica é a mesma: procure na loja de aplicações uma aplicação do seu programa de faturação certificado e confirme o que ela faz com notas de crédito, devoluções e encomendas canceladas.
Na prática, os pontos que verifico numa integração de faturação, em qualquer das duas plataformas:
- A fatura é emitida automaticamente quando a encomenda passa a paga, ou exige um clique manual?
- O NIF do cliente chega ao programa de faturação, e o que acontece quando o cliente não o indica?
- Uma devolução gera uma nota de crédito no programa certificado, ou apenas um reembolso na loja?
- As séries e o ATCUD são geridos pelo programa de faturação, sem intervenção da loja?
- A fatura em PDF chega ao cliente por e-mail e fica ligada à encomenda na área de cliente?
Uma falha num destes pontos costuma aparecer no fecho do mês, no gabinete de contabilidade.
Quem é dono da loja e como se pagam as duas plataformas?
O WooCommerce é um plugin de código aberto para o WordPress. A loja corre num alojamento que escolhe, e os ficheiros, a base de dados e as encomendas ficam consigo. Pode mudar de alojamento, de tema ou de prestador de pagamentos sem pedir autorização a ninguém. Os custos são o alojamento, as extensões pagas que instalar, o prestador de pagamentos e a manutenção (atualizações, cópias de segurança, segurança).
O Shopify é uma plataforma alojada, paga por assinatura. A Shopify trata do alojamento, das atualizações e da segurança da plataforma. Os custos são a assinatura do plano, as aplicações pagas e as condições de pagamento do Shopify Payments ou de outro prestador. Os valores são definidos pela Shopify e mudam; confirme-os na página de preços da Shopify antes de decidir. A loja é sua, mas corre nas regras da plataforma: o que não existe como aplicação ou como funcionalidade nativa tem de ser construído dentro desses limites.
Comparação: WooCommerce e Shopify para uma loja em Portugal
| Critério | WooCommerce | Shopify |
|---|---|---|
| Quota em Portugal (Barn2, 2026) | Sem dados, Portugal não está nos 25 países | Sem dados, Portugal não está nos 25 países |
| Referência mais próxima (Espanha) | 9,1% dos sites rastreados | 5,0% dos sites rastreados |
| MB WAY e Multibanco | Plugins de prestadores portugueses (ifthenpay, LUSOPAY) | Incluídos no Shopify Payments para clientes em Portugal |
| Faturação certificada pela AT | Plugin do programa de faturação certificado | Aplicação do programa de faturação certificado |
| Campo NIF no checkout | Plugin (por exemplo NIF for WooCommerce) | Configuração do checkout ou aplicação |
| Alojamento | Escolhido por si | Incluído na plataforma |
| Atualizações e segurança | Responsabilidade sua ou de quem contratar | Da Shopify, na plataforma; suas, nas aplicações e no tema |
| Propriedade dos dados e do código | Total, ficheiros e base de dados consigo | Dados exportáveis; código e alojamento da Shopify |
| Personalização | Sem limites de plataforma | Dentro do que a plataforma e as aplicações permitem |
| Estrutura de custos | Alojamento, extensões, manutenção, prestador de pagamentos | Assinatura, aplicações, condições de pagamento |
Quando recomendo o WooCommerce a uma loja portuguesa?
Recomendo o WooCommerce quando a loja tem regras que não cabem num modelo padrão: preços por cliente ou por quantidade para revenda, catálogos B2B com condições próprias, produtos configuráveis, ligação a um ERP ou a um armazém com lógica própria. Também quando o conteúdo pesa tanto como o catálogo, porque o WordPress é antes de tudo um sistema de gestão de conteúdo, e um blogue ou guias de produto na mesma instalação ajudam no SEO.
Recomendo-o também quando a empresa quer escolher e trocar de prestador de pagamentos e de programa de faturação sem depender de uma loja de aplicações, ou quando já tem um site WordPress que funciona e quer acrescentar a loja.
A condição é ter quem trate da manutenção. Uma loja WooCommerce sem atualizações nem cópias de segurança é um risco, e esse trabalho tem de estar previsto desde o primeiro dia.
Quando recomendo o Shopify a uma loja portuguesa?
Recomendo o Shopify quando o catálogo é simples, a equipa é pequena e não quer saber de alojamento, atualizações ou certificados. O MB WAY e o Multibanco vêm com o Shopify Payments, e o arranque é rápido.
Também faz sentido quando a loja vende sobretudo em mercados de língua inglesa. Segundo a Barn2, o Shopify lidera no Reino Unido (9,2% contra 5,8%) e nos outros países de língua oficial inglesa do estudo, e é aí que as agências e as aplicações se concentram.
A condição é que as aplicações existentes cubram duas coisas antes de assinar: a faturação certificada pela AT e qualquer integração crítica para o negócio. Se não cobrem, o projeto passa a ser desenvolvimento personalizado dentro de uma plataforma fechada.
Que perguntas faço antes de escolher?
Quando alguém me pede para escolher entre as duas, começo por estas perguntas:
- Que programa de faturação certificado usa o seu contabilista, e existe integração para WooCommerce, para Shopify ou para ambos?
- Vende apenas a consumidores, ou também a empresas com condições próprias?
- Que meios de pagamento os seus clientes esperam? MB WAY e Multibanco quase sempre; cartão e carteiras digitais quase sempre também.
- Quem trata das atualizações e da segurança daqui a dois anos?
- A loja tem de falar com um ERP, um armazém ou uma transportadora com uma integração específica?
- Em que países vai vender, e em que língua?
As respostas às perguntas 1, 2 e 5 decidem a maioria dos casos. A quota de mercado mostra o que outras lojas escolheram e pesa pouco nesta decisão.
Por onde começar
Peça hoje ao seu contabilista o nome do programa de faturação certificado que ele usa e verifique se existe integração para WooCommerce e para Shopify. É a pergunta que mais vezes elimina uma das opções. Se a resposta aponta para WordPress, os passos seguintes estão na página de desenvolvimento WooCommerce; se aponta para uma plataforma alojada, na página de desenvolvimento Shopify.







